
Claude Cahun, nascida Lucy Schwob, mestre dos disfarces. Escritora, fotógrafa, colagista, escultora e performer judia, francesa, que adotava na época pronomes femininos. Cahun teve recentemente este ano um mês de eventos dedicados ao seu trabalho na Torriano House, em Londres, pela editora Thin Man Press, por conta de Cancelled Confessions, uma nova tradução de Aveux non Avenus por Susan de Muth. Conheci o trabalho de Cahun há muitos anos, achei coisas esparsas, traduzidas de anos atrás, e uma oficina que fiz na Torriano me reanimou a mexer nessas versões.
Segue um pequeno trecho de Aveux non Avenus:
Eu me lembro disso, era Carnaval. Passei minhas horas solitárias a disfarçar minha alma. As máscaras eram tão perfeitas que quando vinham a cruzar-se na grande praça da minha consciência, elas não se reconheciam mais. Tentada por sua feiura cômica, eu experimentava os mais malvados instintos; adotava-os; criava jovens monstros em mim. Mas as maquiagens que eu tinha usado pareciam indeléveis. Eu esfregava tanto para limpá-los que removia a pele. E minha alma como uma face esfolada, em carne viva, não tinha mais forma humanaxvi.
Tal um cão preso numa corda muito curta, inquieto, faminto de movimentos livres ao sol, rói insidiosamente o cânhamo e foge para o campo; tal sua casota pesada, úmida de uma palha suja, guardando o odor, a marca da fera, os restos já corrompidos de uma ração de onde ela se nutre, não sabe mais senão esperar, em desespero, impregnada demais desta presença para tornar tolerável qualquer outro uso – boa para atirar ao fogo; assim meu corpo, assim minha alma.
Assim minha alma louca, perdida – oh, sem retorno ! – a presa fácil demais.
Claude Cahun
Tradução: Virna Teixeira
